Tese de mestrado do pesquisador Walace de Jesus Durão - Universidade de Lisboa - Entrevistado Professor Tiago Ortaet

 

Espetáculo de Clown "Que palhaçada é essa???" Direção Tiago Ortaet - Mostra Cultural 2025

Entrevista para tese de mestrado de Walace de Jesus Durão – Universidade de Lisboa com o Professor Tiago Ortaet

 

  1. Tiago, para começarmos, podias contar-nos um pouco da tua história? Como é que foi o teu percurso e o que te levou a focar a tua carreira artística no trabalho social e comunitário?

T.O.: Não tem como falar da minha identidade artística sem antes falar da minha ancestralidade cultural. Eu sou neto e sobrinho de artesãos de Caruaru, aprendizes de Mestre Vitalino, ícone da cultura popular pernambucana com suas esculturas em barro. Meus pais foram retirantes nordestinos que fugiram da fome e da seca do agreste e vieram tentar uma vida melhor em São Paulo no êxodo rural da década de 1970 no Brasil. Meu pai foi um sertanejo analfabeto que nunca teve oportunidade de estudar e ao chegar em São Paulo trabalhou como garçom em bares da cidade. Faleceu precocemente aos 44 anos vítima de um cancêr no pulmão, deixando minha mãe viúva com 4 filhos. Minha mãe, mesmo tendo pouco estudo foi uma mulher que lia e escrevia com muita destreza; criou os quatro filhos com muitas dificuldades econômicas e faleceu vítima de mal de alzhaimer.  Diante desse contexto socio-histórico de desigualdade e exclusão, minha arte haveria de retratar as dores que eram inerentes à minha história e dos meus antepassados.

Eu, desde menino, via em quaisquer manifestações artísticas, um caminho para seguir. Aos sete anos de idade participei de um concurso de dança no pátio da escola pública onde estudava. Esse despertar para a arte vinha toda vez que presenciava uma apresentação e me via nela.

Aos dez anos de idade já me reunia com colegas da escola para dar vazão às histórias que escrevia e representávamos juntos. Naquela época eu já sentia necessidade de levar essas apresentações amadoras para outras escolas de outros bairros da região onde eu morava. Mesmo que instintivamente essa ação já carregava nela mesma um desejo de democratizar o acesso às artes para mais pessoas.

Numa época em que não havia as tecnologias de hoje, nossa difusão das peças teatrais eram de boca a boca, pedindo para os professores informarem os alunos de todas as turmas e levando nossa mensagem a diante.

Minha realidade na infância foi de conviver com mazelas sociais comuns das periferias brasileiras como a violência, a escassez de alimentos etc.

Ainda na adolescência decidi fundar um projeto social que anos depois se transformou na Trupe Ortaética de Teatro Comunitário. Aquele menino audacioso que queria levar acesso ao teatro para jovens periféricos como ele, alçoou voos para edificar um projeto que já atendeu mais de 20 mil pessoas nesses quase 25 anos de atividades. Desde então, sempre focado em estudos e pesquisa, formei-me em artes, jornalismo e pedagogia, além de pós-graduação em artes pela faculdade de educação na USP. Levei o projeto para congressos nacionais e internacionais na América Latina, Europa e África, sempre na perspectiva de contectualizar o trabalho entre teoria e prática.

 

  1. Como é que surgiu o encontro entre a Trupe Ortaética e a Hamburgada do Bem? De que forma é que esta parceria se organiza no dia a dia para desenvolver o vosso trabalho social?

T.O.: Em 2023, após celebrarmos os vinte anos de atividades do projeto, estávamos passando por um período em que não tínhamos espaço adequado para ensaiar, devido ao excesso de burocracia da gestão municipal da cidade de Guarulhos que exigia documentações das mais variadas para o simples uso de uma sala de ensaio num espaço público. Nessa época em conversa com o presidente da Associação Hamburgada do Bem (um amigo de alguns anos, quando nos conhecemos por ocasição de uma campanha política) ele ofereceu o espaço de sua entidade social para que pudessemos ensaiar. Desse diálogo surgiu a ideia de criar um projeto em parceria para ampliar o alcance do que a Trupe já fazia.

Iniciamos no primeiro semestre de 2024 com uma turma de teatro para crianças e adolescentes aos sábados à tarde. Atendíamos cerca de 30 famílias. Em pouco tempo decidimos inaugurar uma turma de jazz. Nesse curto espaço de tempo propussemos o projeto para edital da Lei Rouanet, que é a principal lei de Incentivo à cultura do Brasil. Fomos aprovados e então, após captar recursos com algumas empresas, foi possível ampliar as turmas para teatro iniciante e avançado, turmas de crianças, adolescentes e adultos. Além de turmas em novas linguagens artísticas: cinema, jazz, canto, música etc.

Atualmente realizamos o trabalho artístico e social em quatro diferentes polos (prestes a inaugurar o quinto polo) atendendo mais de 1000 famílias em cerca de 45 cursos. Oferecemos alimentação, material didático, festas temáticas para socialização dos aprendizes, ingressos para superproduções e espetáculos musicais, transporte, certificado e figurinos, tudo gratuito semestralmente.

 

  1. A peça "Marias do Mundo" nasceu do teu livro Eleutérias, sobre o trabalho com mulheres vítimas de violência doméstica. Como foi o processo de transformar estes relatos reais em peças de teatro, garantindo a proteção e o respeito por estas mulheres?

T.O.: Em 2021 eu estava diretor de direitos humanos da cidade de Guarulhos. Esse honroso convite que recebi do prefeito da época para assumir um cargo tão importante me encheu de entusiasmo para dar visibilidade às mulheres que enfrentavam o ciclo de violência. Transformamos a dor de cada uma delas em um livro de superação que se tornou uma política pública para incentivar que outras mulheres denunciassem seus agressores e dessem a volta por cima para se livrarem dessa página triste de suas histórias. A tiragem inicial da obra foi de 10 mil exemplares; todos eles foram disponibilizados gratuitamente para escolas públicas, centros comunitários, universidades, bibliotecas e entidades de proteção dos direitos fundamentais.

Havia um enorme conteúdo sobre a temática da violência doméstica reunida tanto com a compilação das entrevistas que fiz com as personagens reais do livro, quanto com os dados da pesquisa online que realizei com mais de 900 educadores da cidade. Esse material riquíssimo não poderia ficar somente no papel. Pretendia transformá-lo em cena da vida real.

Em 2022 decidi transformar aquela pesquisa qualitativa/quantitativa sobre direitos humanos em espetáculo teatral, pois a arte tem um vies diferenciado em sensibilizar as pessoas para causas humanitárias. Diante desse desejo de expandir a pesquisa para outras linguagens, criei a oficina “Artigo Feminino” onde todas as experimentações cênicas e pesquisas de campo seriam pautadas pelos dados e histórias sobre violência doméstica no Brasil. A partir dessa junção entre obra literária, dados estatísticos e teatro, surgiu o espetáculo “Marias do Mundo” que ficou em cartaz nas cidades de Guarulhos, São Paulo e São Bernardo do Campo.

Sempre tivemos a preocupação e o cuidado para que a identidade dessas mulheres que deram depoimentos nunca fosse revelada e garantíssimos o mais absoluto sigilo. Dessa forma criamos pseudônimos para cada uma delas.

 

  1. Sendo que muitos dos agressores acabaram por ser presos, sentiste que este espetáculo funcionou mais como um ato de justiça social e denúncia ou como um processo terapêutico para o grupo?

T.O.: Concordo com ambas as situações. Quando apontamos o dedo na ferida de uma sociedade que ainda hoje sofre com as consequências absurdas do machismo estrutural estamos promovendo sim, justiça social. O espetáculo serve como uma grande campanha de conscientização contra o machismo, o sexismo e a misogenia, que juntas formam um câncer na sociedade brasileira. Segundo a mais recente pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, quatro mulheres morrem por dia, por razões de gênero. Esse dado alarmante demonstra a urgência de espetáculos abordarem essa temática.

Ao mesmo tempo o espetáculo revelou minúcias do ciclo de violência e escancarou o quanto o tema ainda carece de pesquisa. Durante os ensaios muitos dos atores e atrizes identificaram situações recorrentes em suas famílias e perceberam como a naturalização da violência é um mal que estrutura todas as outras.

 

  1. Durante o semestre com a Turma B, decidimos fazer uma pausa no espetáculo "Marias do Mundo" para apresentar a "Pedra no Lago – acerca de infâncias roubadas" (sobre violência na infância). Como surgiu esta necessidade de mudar o foco e o tema a meio do processo?

T.O.: No Brasil, o mês de maio se tornou um periodo de referência para abordar a temática de combate à exploração sexual de crianças e adolescentes, o que chamamos de “Maio Laranja”. Nossa Trupe tem um histórico de luta pelos direitos humanos, inclusive já realizamos fóruns de debates em universidades públicas em alusão às datas de enfrentamento de violência. Diante disso recebemos um convite oficial da Prefeitura de Guarulhos para apresentar o espetáculo “Pedra no Lago – acerca de infâncias roubadas” no evento da Comissão Intersetorial de Direitos Humanos. Oportunamente esse espetáculo em questão também aborda o trabalho infantil como uma das violências que as crianças estão sujeitas nas diversas violações registradas como crimes. Contudo, fizemos uma apresentação no Dia Mundial de Enfrentamento e Erradicação do Trabalho Infantil realizado no Teatro Admastor e pudemos mais uma vez contribuir com o debate público. No segundo semestre retomaremos a remontagem da peça “Marias do Mundo” e pretendemos apresentá-la no dia 07 de agosto quando se celebram os 20 anos de promulgação da Lei Maria da Penha.

 

  1. A metáfora de "atirar uma pedra ao lago" mostra que a violência contra as crianças afeta toda a comunidade. O que esperavas provocar no público (e no poder político municipal) ao levar esta peça ao palco?

T.O.: A metáfora poética explícita no título do espetáculo refere-se ao “repercutir” pois o ato de arremessar uma pequena pedra no lago, repercuti em todo o lago. Do mesmo modo, quando um adulto agride uma criança, a infância dessa criança fica comprometida, prejudicada, deformada e isso repercuti para toda a sua vida. Dessa forma o meu objetivo cênico e social é falar em proteção integral da infância. É sobretudo permitir que as infâncias sejam respeitadas e o máximo de rigor legislativo para quem comete crime contra uma criança.

São muitos os subtemas que estão implícitos nesse espetáculo; quando uma família reproduz aprendizados equivocados de gerações passadas e não ressignifica as dores do passado cometendo os mesmos erros com os filhos ou netos, isso também é uma repercussão de ciclos. A peça é um alerta para que todos nós quebremos os ciclos de violências (física, emocional, psicológica, patrimonial, sexual, moral...).

 

  1. Na Turma A (adolescentes), trabalhámos questões pesadas de isolamento e saúde mental através da música "O Pulso". Como encenador e pedagogo, como se consegue pôr os jovens a falar destes temas sem barreiras e de forma segura?

T.O.: Primeiramente tendo um espaço acolhedor e de escuta atenta. Sem isso não há como o jovem se sentir pertencente daquele lugar. Para além de um espaço, nossa oficina teatral é um observatório humano e a partir do momento em que o garoto ou garota compreende esse lócus social ele se sente parte de toda estrutura.

Recentemente estivemos diante de uma tragédia. Um de nossos alunos de apenas 16 anos se suicidou. Ele integrava a turma de teatro para adolescentes aos sábados. Foi um momento de muita tristeza e ao mesmo tempo reflexão. Naquele semestre convidamos psicólogos para fazer rodas de conversa para que todos pudessem expor suas impressões sobre o tema.

Acredito que a melhor maneira de conscientizar é falar muito sobre o assunto. Nunca emudecer é a melhor opção. Pedagogicamente, se aprofundar sobre o tema cria raízes e identidade dos jovens para o projeto e vice-versa.

Abordar o tema saúde mental diante de uma canção que é um dos maiores clássicos do Rock brasileiro está sendo muito gratificante. 

 

  1. Na Turma B, temos um grupo muito grande e intergeracional. Quais são os principais cuidados que tens para garantir que todos — desde os mais jovens aos mais idosos — tenham o seu espaço e se sintam integrados no palco?

T.O.: É um desafio bastante intenso. Realizar uma turma intergeracional é respeitar os limites de cada fase da vida mas convergir para o mesmo propósito. É possível conjugar as imaturidades do adolescer com as experiências estruturantes de uma pessoa idosa. Ao mesmo tempo opto por dimensionar a turma a partir da meta que temos, ou seja, todos temos como objetivo a remontagem de um grande espetáculo de repertório da companhia, então que seja uma turma dedicada em pesquisa e foco na construção coletiva. Quando todos estão somando, cada um com suas potencialidades, a coisa flui muito mais.

 

  1. Ao longo deste estágio, dividimo-nos durante as sessões. Como avalias o impacto desta nossa parceria no desenvolvimento das turmas e no resultado das apresentações?

T.O.: Avalio de forma muito positiva e produtiva. Primeiro por que o seu olhar alcançou os nossos objetivos cooperativos, principalmente em relação à uma escrita e composição cênica humanista que seja reflexo daquele “observatório humano” que tanto falo. Em seguida o espírito de coletividade que você carrega em sua formação contribui significativamente para que os aprendizes valorizem cada detalhe, cada expressão, gesto, ideia... Os laços afetivos criados também valorizam o processo de criação e toda a engrenagem teatral que realizamos juntos.

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