HISTÓRICO DA TRUPE ORTAÉTICA 2003-2026

 HISTÓRICO TRUPE ORTAÉTICA DE TEATRO COMUNITÁRIO – 2003 - 2026

 

O germinal do projeto surgiu em 16 de agosto de 2003 no pátio de uma escola pública da periferia da cidade de Guarulhos, região metropolitana do estado de São Paulo, sudeste brasileiro.

A Oficina de teatro social promovida pelo jovem universitário Tiago Ortaet, na época bolsista do Programa Escola da Família, projeto da Secretaria de Educação do Governo do Estado de São Paulo, atendeu nesse primeiro semestre cerca de 20 pessoas entre crianças, adolescentes e alguns de seus pais; desde o princípio tendo forte característica intergeracional e abordando temas sociais.

A oficina estava inserida num contexto histórico em que a gestão pública pela primeira vez abria as escolas aos finais de semana oferecendo projetos culturais e de lazer para a comunidade.

Tendo o espaço escolar como polo cultural e a comunidade como participante ativa dos enredos, foi criado um segundo grupo com jovens atores que passou a pesquisar histórias reais de presidiários do maior complexo penitenciário da América Latina, o Carandiru, que estava prestes a ser desativado. Dessa pesquisa nasceu o espetáculo “A Quinta Estação”.

Em 2007, já formado arte/educador, Ortaet inicia pesquisa de pós-graduação na Universidade de São Paulo e amplia seu olhar artístico social num curso de Terapia Familiar Sistêmica em uma entidade social de proteção dos direitos integrais da crianças e adolescente; amparada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

A práxis artística se estrutura na metodologia do teatro do oprimido do teatrólogo brasileiro Augusto Boal e na metodologia do ensino de arte da Professora Dra. Ana Mae Barbosa.

Em 2008 o projeto passa a integrar uma equipe multidisciplinar com psicólogos, assistentes sociais e arte/educadores num Centro de Atendimento Biopsicossocial na Zona Norte da cidade de São Paulo atendendo crianças e adolescentes a partir do olhar da terapia familiar sistêmica. Os menores eram encaminhados pelos Conselhos Tutelares Jaçanã/Tremembé e Santana/Tucuruvi e após triagem eram convidados a participar das oficinas.

Muitas dessas famílias atendidas eram de extrema vulnerabilidade social e nosso acompanhamento previa visitas domiciliares afim de dar suporte em diversas garantias de direitos.

Para além da prática artística nossas intervenções se embasaram também em pilares conceituais defendidos pelo filósofo Pierre Bordieu (Ethos, Hábitus) e do pedagogo Paulo Freire em sua pedagogia da autonomia.

O principal objetivo desenvolvido era sobretudo de que as pessoas tinham que ter a arte como um espaço de reflexão, para além de suas rotinas; todas elas não seriam ali, vistas por seus problemas, como rotineiramente ocorria, mas pelas suas habilidades e competências, resgatando vínculos e afetos.

Vencendo a resistência de alguns profissionais da entidade e tendo uma coordenação pedagógica democrática, a arte ganhou espaço pela interdisciplinaridade. A força primeira desse projeto de arte/educação foi sem dúvida, de sublinhar a humanidade nos detalhes do cotidiano.

Práticas e experimentos foram experienciados como performances de rua e intervenções urbanas com os mais de 60 alunos frequentes dos encontros semanais.

Nas turmas de jovens, também estiveram jovens abrigados, jovens em liberdade assistida (recentemente egressos do sistema de restrição de liberdade) e pessoas com deficiências. Desse modo, o projeto buscava suporte especializado de outras entidades assistenciais.

Arte como desenvolvimento humano!

Novos temas eram propostos pelos próprios participantes das oficinas, que nessa fase já somavam quase 100 pessoas, entre pais, mães, tias, avós e netas.  Famílias inteiras reunidas em vivências artísticas individuais e coletivas, uma possibilidade de coexistir identidade e alteridade.

A partir de 2009 inauguramos turmas de adultos e a pluralidade de olhares e repertórios foi uma importante marca dessas turmas e suas produções.

Ainda nessa época, já sediados num sindicato de trabalhadores metalúrgicos no centro de São Paulo, a Trupe Ortaética passou a ter características de grupo de estudos interdisciplinares, tendo como fio condutor, o teatro. Nessa nova fase do projeto, foram mais de 400 participantes de nossas oficinas nos 11 grupos formados, isso só foi possível por conquistarmos um importante patrocínio que nos possibilitou ampliar a equipe.

Como resultado de uma das pesquisas, estreamos o espetáculo musical “Perfeição” uma ácida crítica social,  num auditório em São Paulo para mais de 1000 pessoas, entre familiares, amigos e convidados. Também apresentamos os espetáculos “Quando as máscaras caem”,  “Trabalhar é preciso, sonhar é obrigação” ambos criações coletivas; “Machbeth” de Shakeaspeare, “Meu Trabalho, minha vida” e “É um jogo” composições dos grupos de estudos cênicos; todos apresentados em nossa tradicional maratona de apresentações titulada de “FORMARAU” um mix de teatro, música, sarau de poesias e vídeo-arte documentais dos processos de criações.

Ampliando nossa territorialidade, em 2010 aumentamos ainda mais nossa oferta de vagas para cursos gratuitos de artes em regiões periféricas de Guarulhos, Mairiporã e São Paulo, inauguramos novos grupos de estudos em contação de histórias, malabares, percussão corporal, iniciação musical, cenário, fotografia, dramaturgia, além de palestras com artistas nacionais e internacionais, graças a nossa ousada busca por artistas engajados com nossa missão social e parcerias com empresas que apoiavam atividades culturais. Nessa época o trabalho foi exposto em palestra pelo fundador da Trupe Ortaética no Encontro Internacional de Educação Artística em Cabo Verde, continente Africano.

Em 2011 seguimos os passos de uma arte reflexiva e portas abertas para novas experiências. Pela primeira vez implementamos oficinas teatrais de módulo II e uma oficina exclusiva de intervenções urbanas, criamos uma oficina de teatro social para crianças e adolescentes de um abrigo na cidade de Mairiporã/SP, estreitamos nossos vínculos sociais com outros estados, inauguramos uma experiência de intervenção em artes visuais e artes cênicas com a Associação Comunitária da Barra da Lagoa em Florianópolis. Em mais uma exposição em congresso internacional de arte/educação, nosso projeto foi apresentado no INSEA WORLD CONGRESS, Encontro Internacional de arte/educação, que ocorreu na cidade de Budapeste, Hungria.

Em 2012 buscamos uma itinerância de pesquisa, um processo investigativo de nós mesmos enquanto cidadãos criadores. Foi um período mais empírico e introspectivo de nossa missão, momento de reavaliar tudo que fora plantado para alçar novos vôos. Nessa ocasião inauguramos outro ciclo de estudos titulado de “CARDÁPIO ORTAÉTICO” com pesquisas sinestésicas de teatro/educação, performances em Teatro do Oprimido e estudos teóricos. Ainda nessa fase foi apresentado a performance de vernissage da exposição “E…ternos Presenças e Ausências” de Tiago Ortaet na cidade do Porto em Portugal; além da abertura do 4º Fórum de Teatro do Oprimido da cidade de Hortolândia e participantes do Fórum de Políticas Publicas para o Teatro da cidade de Santos.

Em 2013 conquistamos o primeiro fomento público e firmamos parcerias com importantes artistas e instituições promotoras de teatro e direitos humanos, criando o teatro-fórum “Nosso Segredinho” tematizando o abuso sexual, apresentado no Fórum de Direitos Humanos realizado na Universidade Zumbi dos Palmares.

A partir desse momento a Trupe iniciou pesquisa para a criação do espetáculo “Pedra no Lago – acerca de infâncias roubadas” e durante todo o ano realizamos diversas aulas-abertas, palestras e vivências no Centro de Educação Unificado – CEU JAÇANÃ na periferia da Zona Norte de São Paulo, em todas essas ocasiões tematizando o “direito à infância”.

O ano de 2014 se tornou uma experimentação em linguagens híbridas; onde fomos convidados a desenvolver performance teatral no carnaval paulistano, também recebemos a visita da produtora Paranoid, que através de um de seus cineastas selecionou adolescentes atores da Trupe Ortaética para protagonizarem o curta-metragem “Duas de Cinco” do rapper Criolo, que teve lançamento nacional e mais de 2 milhões de visualizações.

Nos anos de 2015 e 2016 o projeto propôs oficinas que instigassem os participantes a questionarem as prestações de serviços públicos em diferentes esferas de poder através do projeto “Parlamento Jovem Incenna”. Diversas ações estéticas e performáticas foram realizadas nesse período.

Entre 2017 e 2018 a Trupe fez morada no Centro Municipal de Educação e Artes – CEMEAR e no Centro de Convivência do Idoso – CCI, ambos equipamentos públicos da Prefeitura de Guarulhos, espaços onde dialogamos sobre temas como a velhice e a longevidade.

Em 2019 o projeto se ramificou para a criação da Casa Ortaética de Humanidades, um espaço comunitário no bairro Jardim Brasil onde atuamos com promoção de cidadania e capacitação em cursos gratuitos. Nessa época também criamos um fórum de debates sobre os direitos humanos com estudantes do Instituto Federal de São Paulo e recebemos palestrantes nacionais e internacionais.

Durante a pandemia de covid19 criamos o “Movimento Apetite” um projeto de segurança alimentar para pessoas em situação de rua e moradores do bairro que estivessem desempregados.

Entre os anos de 2021 à 2023 dedicamos todos os nossos esforços para uma profunda pesquisa sobre a violência doméstica no Brasil. Iniciamos análise de livros, filmes, relatos e na composição da obra “Eleutérias” que se tornou política pública na Secretaria de Direitos Humanos da cidade de Guarulhos. Ainda nessa pesquisa temática, a Trupe criou o espetáculo “Marias do Mundo” que ficou em cartaz em Guarulhos e outras cidades do ABC paulista. Nessa época o projeto recebeu o Prêmio de Boas Práticas da Subsecretaria de Igualdade Racial por abordar questões raciais em seus espetáculos e fomentar o debate antirracista.

Em 2023, ano em que a Trupe completou 20 anos de atividades ininterruptas, o projeto foi condecorado com o mérito cultural na Câmara Municipal de Guarulhos pela relevância dos serviços prestados à sociedade; em principal atenção às crianças e jovens periféricos.

Em 2024 a Trupe Ortaética firmou parceria com a Associação Cultural Hamburgada do Bem e juntos criaram o projeto “Cultura na Comunidade” que atualmente atende mais de 700 famílias em cinco diferentes polos nas cidades de Guarulhos e São Paulo através de dezenas de cursos gratuitos como teatro, (iniciante e avançado) música, (canto, coral, instrumentos) dança, (ballet, jazz, ritmos latinos) capoeira, cinema, literatura, etc.

Próximos de completar 25 anos de atividades, o projeto tem consolidado seu papel de fomentador de cidadania através das artes, sempre incluindo todos e todas para refletir a sociedade no palco da vida.

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