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Arte Contemporânea e Filosofia:
Ateliê de pensamento e criação

Fabiano Ramos Torres – USP – Universidade de São Paulo e Universidade Ibirapuera.


Um ateliê de pensamento e criação como uma zona de indiscernibilidade, onde as certezas, as sínteses, o bom senso e o senso comum “se desfaçam nos pântanos primitivos da vida” . Deslocamento de lugares, posições, pontos fixos e comuns: na interface entre o pensamento artístico e o filosófico, acontece uma operação de desterritorialização onde, cada qual, perdendo seu porto-seguro, lança-se num nada, num pensamento sem qualquer imagem. Abre-se, aqui, uma fenda para o vazio. Isso quer dizer que o local onde o encontro vai acontecer, o lugar do acontencimento, vai ser transformado num pântano. Mergulhar no pântano é mergulhar no caos: permitir que as figuras do homem sejam devoradas.

“Cesariana”, 1967. Obra de Ligia Clark. Um macacão tem na altura do ventre uma bolsa, um zíper para dar acesso ao dentro onde encontramos outro zíper que, aberto, revela um interior recheado de confete e espuma picada. Um homem veste a obra. A cesariana é uma ação por meio da qual uma coisa vem à luz através de um corte. Rasga-se a pele e mete-se a mão dentro, no interior da coisa para esvaziá-la numa festa: confetes e espuma de travesseiro picada (uma guerra de travesseiros: guerra que só acaba quando por fim as penas começam a voar por todos os lados e o que então era o recheio passa a ocupar a superfície do lugar...) Um homem grávido de confetes e espuma de travesseiro encontra nos atos de cortar e meter a mão nas entranhas o seu devir-criança, que significa um encontro com a afirmação da vida mesmo diante de todas suas agruras. Devir-criança é encontrar o frescor de cada instante, um hálito de vida. Ou um devir-mênade com seu dilaceramento da unidade e a conseqüente profusão de multiplicidades. É uma coisa trágica sem dúvidas, mas algo misteriosa. Como nos mistérios dionisíacos em que há esquartejamento do eu. Os antropófagos brasileiros destripavam o inimigo e com suas entranhas faziam uma papa que davam de comer às crianças. No ritual antropofágico, engolir o outro, inimigo querido, para incorporá-lo. Pedaços do outro somados a um corpo que certamente já não mais o mesmo. O festim é o próprio devir. Depois vem a “Baba antropofágica.” Outra obra de Lygia Clark: uma troca de fluídos, um emaranhados de fios saindo da boca que se abrira para receber um objeto estranho, novamente o dentro é extirpado – o que interessa aqui é mais uma vez que tudo sobe à superfície que se constrói com ungüento, baba, matéria orgânica. O pensamento, a obra, o artista, o fruidor se fazem em ato, no meio da intensidade, dos fluxos, dos jorros, dos pedaços de coisas que saem de dentro e vão ser, no fora, um outro modo de ser.

O ateliê como um grande pântano feito de baba, água, pêlos, bolas de isopor, sacos aéreos, túneis sem saída, um grande labirinto aspirado, lençóis amarrotados para uma nova imagem do tempo, terra, pedras, frutas, polias para unir as engrenagens, uma hora do dia, um vento, pássaros cantando. Proposta de tirar o homem de sua passividade sem caos. Ateliê: pântano para o desbloqueio da vida. Pântano infernal da vida onde cada um é forçado a participar, co-inventar, colocar um pouco de ordem ao caos, numa luta desesperada por sentido, significação de si, da existência. A participação, a invenção, somente por meio delas é que se pode conceber um lugar onde o corpo esteja para além da individualidade. Uma outra coisa. O ateliê como algo para ser vivido. A arte mergulha no pântano da vida e arrasta parte do caos para dentro do ateliê. Ou melhor, ele rasga a profundidade da vida para fazer boiar a vida. Há processos, construções. Tudo fora de lugar. O tempo fora dos gonzos. O mundo de pernas para o ar. O que é do pensamento conceitual agora, nessa usina, nessa metalurgia de cavacos incandescentes? Suas categorias são tornadas então preconceitos, pois em meio à lava tudo se desfaz. O pensamento forçado a um recomeço, uma nova invenção. Inventar tudo de novo e a cada vez. A arte contemporânea é quem possibilita esse ateliê/casa/corpo que se constrói com objetos cotidianos, inusitados, com a ganga, o refugo. Não interessa a pintura, não interessa a escultura, o desenho, a peça. A pintura não dá mais conta – há muito que os artistas explodiram as bordas, fizeram a cor saltar da tela, flutuar no espaço, uma cor intangível. O contato com vibrações esquecidas, mas presentes, aqui, sempre. Contato com algo grande demais – uma grande cilada ( armadilha ) : essa incomensurabilidade da vida é inapresentável. Afetado por essa intensidade, o pensamento perde suas âncoras e é forçado a algo mais que não está senão nele mesmo. Pântano da vida, bios, uma potência de variação, invenção de novas formas. Deleuze: a doença é o que pára o processo. A arte, como grande possibilitadora da vida, é um modo de ativar as potências. Os impedimentos do corpo são então esburacados pelo ato, pela retomada do processo. Pensamento/invenção – o artista não está separado do pensador. O pensador não está separado do fruidor, todos com suas cotas de invenção/pensamento. Se o que se busca é o inapresentável – que nas palavras de J.F. Lyotard não se pode ver nem fazer ver, mas apenas conceber – então, o trabalho a ser realizado implica uma dimensão conceptual onde os elementos são extraídos “ não da suposta realidade da visão, mas da concepção...” Não se trata mais de representar coisas e sim mostrar que só existe o grande mundo da invenção. Diz Lygia Clark: “O dentro que eu procurava é o espaço de fora”. Recusar a obra de arte como tal e dar mais ênfase ao ato de realizar a proposição. O pântano de objetos relacionais é aquele que só ganha sentido na relação que se estabelece com ele, entra-se numa relação: um carretel de linha, uma bola de ping-pong, sacos de ar, saco de areia – e é como permitir que algo venha ao mundo por meio das fendas abertas por esses objetos. A idéia é continuar o pântano - como uma massa de coisas, uma massa orgânica, um território pré-formal, uma virtualidade pura, território da indiferenciação. Nele mergulha-se nele e cada qual vai sair dali com aquilo de que o seu corpo for capaz. A pletora de objetos estranhos e, no entanto, familiares, atuam, agem como signos que deslocam o sentido atribuído cotidianamente a estes objetos. Os objetos tornam-se relacionais, significados de acordo com o uso que se faz deles. O corpo está no mundo, afetado por ele, se relacionando com os objetos, incitado a mais: quer saber de sua condição, das máquinas-extensões que a ele se conectam, quais seus efeitos, suas intensidades, o que possibilitam, como desafiam, põem à prova o poder de um corpo.

Um meio de realizar. Cada proposição é um pensamento-invenção que não significa nada além de seu próprio campo de composição, nada além de si mesmo. Nenhuma representação, mas apresentação de uma única coisa: o ato, o processo, a máquina. Sua revelação é sua auto-fundação. A invenção funda e revela a própria invenção. Por isso ela não representa algo que estivesse em outro lugar. Ela se apresenta. A superfície pura. A pele da vida sem fundo. A obra e o ato é que vão inventar as categorias. É o mergulho no pântano que se vai possibilitar a invenção das regras. Não se parte de pressupostos, de leis a priori, pois as leis são justo o que a obra procura. O pântano abole objetos e formas preestabelecidas, pois nele o que há são forças.

O ateliê é uma heterocronia, isto é, lugar de um outro tempo. O tempo do ato como experimentação. O que acontece neste outro lugar – nessa heterotopia, portanto – o que nela acontece é mais importante que a obra. Fim das obras, fim dos artistas que, diga-se de passagem, assim como o autor são funções. O ato é o gesto absoluto da imanência – nenhum problema em dizer absoluto aqui porque o que é absoluto é a autoprodução. “ O ato é a transformação de uma virtualidade em um empreendimento concreto.” Se o pântano é virtual, só se sai dele por meio do ato, da ação propositiva, da invenção. “A obra é seu ato.” No ato de fazer, a coisa e o sujeito tornam-se totalmente indissociáveis. Fazer arte – ou como quer que venha a se chamar esse devir – é fazer-se a si mesmo e ao mundo. A arte e a filosofia são inseparáveis da vida – arte, pensamento e vida estão ligados pelo ato, ou seja, pela invenção. A vida, imanência.

O ateliê de criação como casa-corpo que acolhe e abriga para digerir as subjetividades convidando-as a um exorcismo estético – arte como cura, como retomada do processo. A casa-corpo é o corpo-coletivo. O ateliê de pensamento e criação como um exercício de como viver junto, ensaio para uma vida não fascista. Ensaio de coletividade, experiência socializante, do encontro com o outro. Corpo-coletivo como máquina onde cada um é uma máquina que se liga a outra máquina. Tudo são máquinas. Se dali vai sair, se vai resultar uma obra final pouco importa: o que importa é o ato e que as máquinas funcionem, continuem a funcionar por toda a parte.

Um ateliê como máquina antropofágica, que devora o homem, despedaça sua identidade e faz com que ele se estranhe, separe-se de si mesmo, mal se entenda consigo próprio. Não entramos para encontrar um “eu” interior, um self. Entra-se no processo não para se encontrar – mas para se sentir estranho. Estou me estranhando, é a saída do labirinto. Ou o começo dele.

Bibliografia

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix (1976). O Anti-Édipo – capitalismo e esquizofrenia. Lisboa. Assírio & Alvim 2004.


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