As desavenças da urgente urgência

por - 02 julho

E na era do "Time is Money", quem não quer ter tempo? Tempo para trabalhar mais, para estudar mais, para conversar mais, para namorar mais, paquerar mais, dormir mais, comer mais, enfim, tempo para tudo. Tudo, tudo mesmo! As 24 horas de um dia não são suficientes para fazer tudo o que se deve fazer; e sempre uma tarefa ou outra, acaba ficando de lado. Há quem diga não ser inimigo do tempo, e há quem diga viver cansado. Confesso que me irrito com ambos os comentários, uma vez que quem faz o tempo, senão nós mesmos? Estabelecer prioridades é a principal mudança a fazer, principal e mais simples, contudo, muitos ainda insistem dizer que não é possível mudar a rotina, sendo que o trabalho engole parte grande de seu tempo. Trabalho,estudo, lição, sono, tudo é muito urgente; e nesse meio, o importante acaba não sendo tão urgente assim.

Gabriel Prehn Britto, do blog Gabriel quer viajar, tuitou a seguinte frase: “Precisamos redefinir, com urgência, o significado de URGENTE", disso tudo, saiu uma nova matéria de Eliane Brum da revista época, e dessa reportagem, surgiu um bloco de discussões no programa Saia Justa da GNT. Pois bem, nada mais justo, afinal em uma época em que tudo é urgente, nada mais é tão urgente assim. Falar com os amigos é urgente, fuçar na internet é urgente, alimentar o Pou é urgente, pegar o ônibus é urgente, trabalhar é urgente, limpar a casa é urgente,responder sms é urgente e tudo é feito em uma pressa impossível de ser compreendida. Vivemos presos à pressa de fazer tudo com pressa.

 O fazer bem feito parece perder seu significado, e urgência, ainda mais. Tudo é mensagem, tudo é feedback, e nesse tempo confuso, embolado, existe tempo para tudo, menos para o que realmente interessa. O que quero dizer (assim como Gabriel Prehn Britto,Eliane Brum,e o pessoal de Saia Justa) . O mundo, em nossa concepção, deve estar acessível a nós a qualquer instante.

Mandamos mensagem no facebook, e reclamamos da demora da resposta, mandamos um tweet, e queremos um de volta, no mesmo exato momento. A conversa tornou-se agressiva, e o mundo cada vez mais egoísta. Não se vive sem celular, e este, acaba com a rotina de qualquer um.

 Em tempos em que o celular faz tudo, inclusive fritar ovo e voar, estamos acessíveis a todos a qualquer momento;precisamos permanecer online sentimos, que naqueles 4 minutos em que não estamos disponíveis , o mundo muda -pura ilusão, não só permaneceu o mesmo, como sempre permanecerá- . Atividades que deveriam ser rotineiras, passaram a ser urgentes, como se todos precisassem saber o que foi a refeição do almoço, ou ainda, o que comprou no supermercado.

 É um vício, uma rotina que nos prende, que quando nos damos conta do que é verdadeiramente urgente, já é tarde. Urgentemente tarde demais.

Passo a imaginar como deve ser chato quando estou com pessoas que realmente se importam comigo, e eu dedico-me a responder sms, ou a jogar alguma coisa. Ou eu fico com essas pessoas de corpo e alma, ou não preciso nem estar com elas; a sensação que tenho, quando as posições se invertem, é que a pessoa não se importa a mínima comigo, ou que ainda, falar com alguém que nem ao mesmo presente está, é extremamente mais importante do que a minha presença.

Tomei, pois, a decisão de que mandar sms, não é saudável para as relações que estão por perto, as verdadeiramente importantes, que dedicamos o mínimo de nós. Me parece extremamente descortês, se tento falar com alguém, que parece não me dedicar atenção. Os facebuquianos que os digam. É urgente comentar, curtir, publicar o que sente, vive, compra ou dorme. E o que realmente deve ser urgente, passa como nada.

Decerto, algum leitor sensível dirá que muitas vezes o contato seja ele profissional, ou familiar, se dá por distância, e que tanto a mensagem de texto, quando o facebook, ou skype, são importantes. E a esses leitores, digo que aqui apenas discordo do ato de estar acessível a tudo e todos o tempo todo, e certamente, existem situações e situações.

Com um mundo urgente, o necessariamente urgente, fica de lado. "Viver no tempo do outro – de todos e de qualquer um – é uma tragédia contemporânea."

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