Tiago Ortaet em ENTREVISTA concedida ao jornalista EFRAIN CAETANO

Jornalista Efrain Caetano - Os artistas de Rua recebem o devido valor das autoridades e da sociedade? Caso contrário, qual o motivo da desvalorização dos artistas de rua na capital paulista?
Professor Tiago Ortaet: Uma cidade cosmopolita como São Paulo é por natureza um palco a céu aberto, em potencial uma cidade onde coexistir é a palavra de ordem; afinal temos artistas engajados, arte itinerante de todas as linguagens, do repente ao rap, do teatro as intervenções; mas não é assim que as autoridades enxergam.
Não há valorização aos artistas de rua por parte das autoridades, muito pelo contrário há um cerceamento no direito de expressão e essa ditadura velada está infinitamente ligada a insatisfação dos poderes com o poderoso veículo de protesto que a arte exerce.
Uma arte que contesta que aponta que revela que manifesta e se engaja facilmente será alvo da repressão dos poderes.
Limitar as expressões artísticas é recurso da ignorância e um elogio da alienação!

E.C.: Qual a relevância da arte de rua em seus vários gêneros?
T.O.: No mundo frenético contemporâneo a arte traz o que o dia a dia nos tira. A arte ambulante, como a que defendo e milito a anos, traz dentre outras coisas a criticidade, o afeto, a proximidade nas relações, o desaceleramento necessário para contemplá-la e sobretudo o néctar essencial para viver. O mundo robotiza, a arte humaniza!
O teatro, por exemplo, originalmente (desde os primórdios) não foi concebido para um espaço fechado, com o passar dos séculos se tornou uma arte vinculada a um palco mais formal. Encanta ver um espetáculo pelas ruas, ao mesmo tempo levar uma mensagem a quem passa pela rua com outras preocupações e pára pra se envolver com que se conta é mágico.

E.C.: Como a arte de rua contribui para a consciência cultural no país?
T.O.: A arte de rua vai de encontro com a democratização dos bens culturais imateriais, mais do que isso, serve um banquete a quem nunca degustou tal sabor. Numa sociedade que está acostumada e robotizada a gostar de produções Hollywoodianas ao invés de prestigiar o cinema nacional, de paralisar diante da Tv ao invés de freqüentar os teatros ou ler um bom livro, num mundo assim, oferecer arte de rua é mais que oportunidade é um ritual urbano.

E.C.: Qual sua opinião sobre a lei criada em São Paulo que regulamenta as atividades dos artistas de rua?
T.O.: Artista não precisa de cartilha! Desde que respeitadas as leis de convivência, prezando pela ética e o respeito, não há limites para a criação artística, até por que todo artista é um contestador nato, ele é o personagem da vida real que sempre irá subverter a realidade afim de expressar suas idéias.

E.C.: Quais projetos você trabalha atualmente referente aos artistas de rua?
T.O.: Fundei há 4 anos um coletivo de artes onde o foco principal é ensinar a arte teatral para não-atores, pessoas comuns que experimentam a linguagem cênica e tem suas vidas transformadas por essa relação. É uma espécie de laboratório humano onde os viventes passam por situações multisensoriais afim de reciclarem a si mesmos enquanto seres humanos e com suas relações com o outro.
Sempre tive como princípio que a rua é nosso palco estendido e é assim que cultivamos até hoje nossos projetos com performances de rua, intervenções, espetáculos e etc. Já nos apresentamos debaixo de viaduto, em praças, parques, avenidas, sempre levando um cunho poético para o espaço urbano.
Em 2009 numa situação no metrô Tucuruvi estávamos realizando uma performance teatral titulada de “ECOS” (de ecoar) sobre os maus tratos às crianças. Na ocasião eu e mais 25 alunos aproximadamente caminhávamos na calçada da estação mascarados, com tochas e carregando um caixão (de verdade) pois tudo aquilo tinha a ver com nossa cena aberta. Imediatamente os seguranças do metrô foram truculentos, dizendo que não podia ficarmos ali. Afinal a rua é publica ou não é? Não estávamos parando o trânsito nem agindo de forma agressiva, apenas encenando.
Semana seguinte levei uma outra turma (com mais de 30 jovens) para realizarmos a CAMPANHA DE VACINAÇÃO CONTRA O MAU HUMOR dentro do metrô. Disse que chamaria a polícia caso algum de meus jovens fosse hostilizado, pois todos ali pagaram a passagem do metrô como qualquer outra pessoa.

E.C.: Fale mais sobre você? como é seu trabalho e relacionamento com os artistas de rua?
T.O.: Não apenas nesse coletivo de artes, mas até na escola formal, onde sou professor de artes na rede estadual de ensino, levo meus alunos para fazerem gravações de curta-metragens em praças, feiras livres e ruas do bairro; pois acredito que o conhecimento não está dentro de uma sala fechada, exaustiva e limitada. É preciso extrapolar os muros das escolas.
Sobre minha bio-artes: Eterno pesquisador das artes, iniciei estudos em teatro aos 10 anos ainda no colégio, fiz dezenas de cursos em diferentes linguagens da arte.  Sou Arte/Educador das redes publicas Estadual e Municipal de ensino de São Paulo, ator, coordenador pedagógico em projeto social, poeta e pesquisador das relações artísticas em espaços formais e não formais de educação. Mestrando em Relações interculturais, pós graduado em Linguagens da Arte pela USP. Já palestrou em congressos internacionais na África e na Hungria. É Pai do menino Otávio, casado com a jornalista Vanessa Monteiro, poetizador da vida e apaixonado pela missão-educar.
Os populares, em sua maioria, nos recebem muito bem e são abertos a esse tipo de intervenção. Inclusive no próximo sábado farei uma festa das crianças com quem nunca pode ser criança – os meninos de rua da Praça da Sé. Iremos em cortejo da Liberdade até lá.

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